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traças



em 2009-11, esta instalação, que consiste na apresentação de casulos de traças alinhados na parede do espaço expositivo, foi compreendida como uma proposta conceitual e incorporada ao acervo do museu de arte de santa catarina. nesta versão do trabalho, um projeto conceitual, a coleta de casulos vazios de traças deve ser realizada nas dependências do museu pela sua própria equipe técnica para apresentação no espaço de exposição. além de incorporar a dimensão processual (e não apenas os indícios materiais), o trabalho potencializa o paradoxo de que a quantidade de traças apresentada indica não apenas o envolvimento da instituição na manutenção do trabalho, mas também sinaliza as suas condições de conservação. ou seja, se, por um lado, a escassez de casulos coletados indica a assepsia da instituição, por outro, impede ou reduz significativamente a visibilidade da obra de arte que integra sua coleção.
o trabalho tem um fracasso embutido, pensando fracasso como dimensão paradoxal em relação ao lugar e à visibilidade do trabalho na instituição.

peso/sopro




o esforço para medir o peso de um sopro, em tentativas repetidas. a ação consiste em soprar uma pequena balança de precisão, experimentando diferentes intensidades e variações de duração. o vídeo mostra a
reiteração de um gesto, num processo de antemão pautado na própria falibilidade do empenho. fazer uma coisa que não pode ser feita, que sabe-se que não pode ser feita. e ficar tentando. a repetição insistente. uma espécie de insubordinação ao fracasso, partindo dele para, numa teimosa insistência, valorizar o gesto e refutar a importância do resultado.

durex




um pequeno quadrado de fita adesiva em uma folha de papel. a expectativa de que o adesivo, com o passar do tempo, deixe uma marca no papel. uma página em branco na espera de uma imagem. uma imagem formada pelo contato entre o papel e o adesivo. a intervenção foi desenvolvida e publicada na revista bolor no 1, em 2010.

cubos



projetos que envolvem a produção de um cubo contendo outro cubo, menor, de um outro material, em seu interior.
um cubo de pedra com um cubo de água dentro.
um cubo de metal com um cubo de sal dentro.
um cubo de papel com farelo de pão dentro.
desejo de criar uma situação em que, potencialmente, haja uma interação a partir do contato entre os materiais e estes possam se afetar, de forma silenciosa e invisível, de dentro para fora. como a oxidação do metal pelo sal ou da proliferação de umidade/mofos - provocando manchas no papel. o trabalho é pensado como potência, sutil e não necessariamente visível, daquilo que pode acontecer ou não. algo que pode também prolongar-se numa tal extensão temporal que excede os limites temporais comuns de uma exposição. uma imagem cercada de dificuldades técnicas e a incerteza da possibilidade real de materializar a proposta.


coluna de papel



uma instalação constituída por folhas de papel branco empi-lhadas, sem nenhuma estrutura de apoio interna nem externa, apoiada apenas no chão e no teto.
para montar a coluna, foi preciso usar folhas grandes - proporcionais à altura do pé direito da sala de exposição. e mesmo assim eu ainda tinha muitíssimo medo de que fosse desmoronar, que nessa queda pudesse machucar alguém. a coluna foi montada no museu de arte de santa catarina, em 2011, contando com 8 mil folhas de papel branco de 47,8 x 66 cm empilhadas, alcançando cerca de 3,85 m de altura.
durante a montagem, a instabilidade que crescia proporcionalmente à altura da coluna, foi relativamente estabilizada ao atingir a superfície do teto, uma inversão em relação ao seu ponto de apoio: a coluna não se apóia apenas no chão, mas no teto, desestabilizando a função normal de uma coluna (que deve sustentar o teto).
a coluna que segura o teto, e todo o prédio, disse paulo herkenhoff. a desmontagem mostrou um dado contingente e imprevisto no projeto: a coluna tornou-se um grande bloco compacto com a absorção da umidade do ar (não artificialmente controlada no museu) e conseqüente dilatação das folhas. e o que aconteceu foi inesperado: a coluna ficou presa ali embaixo, forçando e provocando rachaduras no teto.



primeira versão do trabalho: protótipo de folhas de papel bem pequenas, de apenas 4 x 4 cm, tentando (ingenuamente) alcançar o pé direito da sala. com poucos centímetros de altura, a pilha desmoronava, mostrando a inviabilidade do empreendimento – pelo menos naquela escala. e desmoronava mesmo apoiando uma das faces lateralmente na parede. e desmoronava mesmo usando cola. os gestos envolviam a queda e a insistência, a tentativa de sobrepor com cuidado. as quedas eram desastrosas. os pequenos papéis se espa-lhando por toda a sala. duas longas tardes envolvidas em fracassar.


empilhamentos



desenhos e projetos em que vários exemplares de um mesmo elemento são sobrepostos para formar uma estrutura vertical.
uma coluna de pães de fôrma.
uma coluna de poeira.
uma coluna de papéis com um pequeno cubo de metal entre as folhas (o quanto ele marca os de baixo, com o peso das folhas de cima?).
alguns projetos são possivelmente irrealizáveis. o trabalho se move em torno do peso, da estabilidade e da forma como, no esforço para colocar de pé, a possibilidade de cair aparece imperiosa. a coluna pode efetivamente desmoronar ou evidenciar sutilmente a tensão de forças e a potencialidade da queda na precariedade do equilíbrio.

mofos



série de imagens fotográficas de alimentos que (não intencionalmente) mofaram em minha cozinha. o tra-balho vem sendo realizado desde 2006, através da
observação e produção de imagens, num processo
aberto, inacabado. o trabalho é movido pela responsabilidade e a opressiva sensação de impotência de conservar as coisas, de mantê-las na circunscrição de seus usos. de conter os processos entrópicos na esfera doméstica. as imagens exploram detalhes de reentrâncias, texturas e pequenos volumes dos mofos que, desavisadamente, aparecem e se proliferam nas superfícies dos alimentos. costumo fotografar os mofos bem de perto e, nessa proximidade, fechando o enquadramento, as referências ao contexto da tomada são praticamente omitidas. há um certo fracasso da imagem, enquanto representação mais fácil, evidente. gosto que esses mofos pareçam paisagens, superfícies de pântanos, montanhas, charcos. mas que, ao mesmo tempo, a imagem conserve uma indecisão, algo de instável. algo que desminta essa suposta paisagem - como um reflexo na superfície metálica da pia ou uma sombra incongruente.

cubo de poeira





uma instalação com um pequeno cubo formado pela acumulação e sedimentação de poeira recolhida em minha casa. o cubo é colocado diretamente sobre o chão do espaço expositivo. e gradativamente se desfaz.
o trabalho se faz a partir do desejo de uma forma, o cubo (forma estável, coesa, geométrico etc.), e a poeira (matéria informe, instável, feita de uma multiplicidade de coisas, que não se controla). é o projeto de uma forma que, ao esbarrar com a contingência da matéria, fracassa. mas o trabalho não se “surpreende ingenuamente com o fracasso. o trabalho assimila a possibilidade de fracasso na construção e manutenção dessa forma-cubo desde o início, quando se propõe a criar um cubo de poeira. as dificuldades de fazer um cubo de poeira, o fracasso de fazer um cubo de poeira durar. e antes dele, o fracasso inerente às atividades mais ordinárias e vitais de limpar, ali-nhar, guardar, fazer durar.